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Tracoma: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção

Escrito por alexandreb.sousa | | Publicado: Sexta, 16 de Agosto de 2019, 14h05 | Última atualização em Sexta, 16 de Agosto de 2019, 16h24

O que é tracoma?

O tracoma é uma doença inflamatória ocular, uma conjuntivite causada pela bactéria Chlamydia trachomatis que ocorre em áreas de maior concentração de pobreza, deficientes condições de saneamento básico e acesso à água. 

O tracoma é responsável por prejuízos visuais em 1,9 milhões de pessoas, das quais 450 mil apresentam cegueira irreversível. Estima-se que 190,2 milhões de pessoas vivem em áreas endêmicas com risco de cegueira por tracoma.

IMPORTANTE:  O tracoma é um problema de saúde pública em muitos países pobres e em áreas remotas de 42 países da África, Ásia, América Central e do Sul e Oriente Médio (Bourne et al., 2013; WHO, 2016; WHO, 2017).

Tracoma: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção

Quais são as formas clínicas do tracoma?

O tracoma apresenta cinco formas clínicas, classificadas e padronizadas pela Organização Mundial de Saúde - OMS:

  • duas formas transmissíveis, ativas (Tracoma Inflamatório Folicular – TF e Tracoma Inflamatório Intenso - TI);
  • três formas não transmissíveis (Tracoma Cicatricial - TS, Triquíase Tracomatosa - TT e Opacificação Corneana - CO) - formas sequelares, consequência de processos repetidos de infecção e cicatrização.

Um caso positivo de tracoma possui vínculo epidemiológico, está sempre associado a outro caso. Em áreas onde as infecções bacterianas secundárias são frequentes, aumentam os riscos de transmissibilidade e gravidade da doença.

O que causa o tracoma?

A causa do tracoma é a presença da bactéria C. trachomatis em contato com a conjuntiva ocular, que produz uma reação inflamatória difusa na pálpebra superior, com o aparecimento de folículos. Em áreas hiperendêmicas, em decorrência de infecções repetidas, os folículos, que são formações arredondadas, evoluem e quando regridem persistem cicatrizes nos locais afetados que evoluem para a formação de linhas de cicatrizes. Nem sempre haverá a formação de cicatrizes

As cicatrizes produzem deformidades que evoluem para a retração da pálpebra entrópio) e dos cílios (triquíase). Os cílios em posição defeituosa tocam a córnea e provocam abrasão crônica, opacidade da córnea, que promove a diminuição progressiva da visão. Caso não seja realizada a cirurgia para correção palpebral ou epilação destes cílios, o caso pode evoluir para baixa na acuidade visual até a cegueira.

  • Agente etiológico: bactéria gram-negativa Chlamydia trachomatis, de vida intracelular obrigatória, dos sorotipos A, B, Ba e C. Existem outros sorotipos de C. trachomatis infectantes para o homem, porém estão associados a conjuntivites de inclusão, doenças sexualmente transmissíveis e pneumonia em recém-nascidos.

  • Reservatório: O homem, com infecção ativa na conjuntiva ou outras mucosas. Crianças até 10 anos de idade, com infecção ativa, configuram o principal reservatório do agente etiológico, nas localidades onde o tracoma é endêmico.

  • Vetores: Alguns insetos, como a mosca doméstica (Musca domestica), e/ou a lambe-olhos (Hippelates sp e Liohippelates spp.), podem atuar como vetores mecânicos da bactéria.
IMPORTANTE: Não há reservatórios animais reconhecidos.

Quais são os sinais e sintomas do tracoma?

Em sua fase inicial o tracoma é uma doença endêmica nas crianças. A doença apresenta um curso crônico recidivante. Repetidas infeções em áreas hiperendêmicas produzem a formação de folículos e cicatrizes na conjuntiva palpebral superior. As cicatrizes na mucosa da pálpebra superior promovem mudanças na posição da pálpebra (entrópio) e alteração na posição dos cílios (triquíase), fazendo com que os cílios toquem o globo ocular. Os atritos dos cílios sobre o globo ocular causam escoriações na córnea que levam à opacificação e diminuição da acuidade visual até à cegueira.

Em geral, o indivíduo com tracoma apresenta os seguintes sinais e sintomas:

  • fotofobia (sensibilidade e intolerância à luz);
  • prurido (coceira nos olhos);
  • sensação de corpo estranho dentro do olho;
  • vermelhidão nos olhos;
  • secreção;
  • lacrimejamento.

Muitos casos de tracoma não apresentam nenhum sintoma. O período de incubação (período entre o momento da infecção e o surgimento dos sintomas) do tracoma dura de 5 a 12 dias e pode se apresentar inicialmente com a aparência de uma inflamação que afeta ambos os olhos.

Os pacientes que apresentam as formas sequelares do tracoma - entrópio (pálpebra com a margem virada para dentro do olho) e triquíase tracomatosa (cílios em posição defeituosa, tocando o globo ocular) manifestam dor constante, fotofobia e dificuldade de abrir os olhos.

IMPORTANTE: A maior ou menor gravidade da doença ocorre principalmente com a reincidência da doença em áreas com muitos casos de tracoma e pelas conjuntivites bacterianas associadas. Infecções bacterianas secundárias podem estar associadas ao quadro, contribuindo para a disseminação da doença.

Como é feito o diagnóstico do tracoma?

O diagnóstico do tracoma é essencialmente clínico e realizado por meio de exame ocular externo, utilizando lupa binocular de 2,5 vezes de aumento, onde buscam-se os sinais clínicos de presença de folículos e cicatrizes na conjuntiva palpebral superior e alterações na posição dos cílios. 

O diagnóstico laboratorial deve ser utilizado para a constatação da circulação da bactéria causadora do tracoma na comunidade, e não para a confirmação de cada caso, individualmente

 A técnica laboratorial padrão, para o diagnóstico das infecções por Chlamydia trachomatis,  é a cultura, porém não é utilizada como rotina nos laboratórios de saúde pública. No Brasil, a técnica de Imunofluorescência Direta foi realizada por vários anos. Atualmente encontra-se em fase de validação a técnica  de diagnóstico molecular de reação em cadeia da  polimerase- PCR, para Clamidia ocular.

Como é feito o tratamento do tracoma?

O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde é o antibiótico Azitromicina na dose de 20mg por Kg de peso para crianças e para adultos acima de 45 kg , 1 grama, em dose única oral. O SUS disponibiliza tratamento gratuito de azitromicina nas apresentações em comprimidos de 500mg e suspensão de 600mg.

O objetivo do tratamento é a cura da infecção , interrupção da cadeia de transmissão da bactéria e diminuição da circulação do agente etiológico na comunidade, o que leva à redução da frequência das reinfecções e da gravidade dos casos. 

Para impacto no controle do tracoma, faz-se necessário adoção de medidas de controle como o uso de antibióticos em massa de toda a população nas áreas hiperendêmicas e medidas de melhorias ambientais, de saneamento e educação em saúde.

Como o tracoma é transmitido?

Modo de transmissão: contato direto de pessoa a pessoa, ou indireto por meio de objetos contaminados (toalhas, lenços, fronhas etc). As moscas podem contribuir para a disseminação da doença, por transmissão mecânica. A transmissão só é possível na presença de lesões ativas.

A suscetibilidade à infecção por tracoma é universal, sendo as crianças as mais suscetíveis, inclusive às reinfecções. Não se observa imunidade natural ou adquirida à infecção por C. trachomatis.

Como prevenir o tracoma?

O tracoma está relacionado com as precárias condições socioeconômicas, de saneamento e com os determinantes sociais em saúde. Em países desenvolvidos, o controle da doença foi alcançado com melhoria das condições de vida e saneamento básico.

Nesse sentido, são fundamentais, para prevenir o tracoma, medidas de promoção da higiene pessoal e familiar, tais como a limpeza do rosto, o destino adequado do lixo, disponibilidade de água e destino adequado dos dejetos.

A prevenção do tracoma pode ser realizada com a adoção de hábitos adequados de higiene, como lavagem do rosto das crianças com frequência e não compartilhamento de objetos de uso pessoal como lenços, roupas e toalhas entre outros.

A busca ativa deve ocorrer em comunidades de risco epidemiológico e social, em escolas e creches, e de forma sistemática nos locais onde haja suspeita da ocorrência de casos de tracoma. Deve ser ressaltada a importância das medidas de educação em saúde, envolvendo pais, professores, funcionários e crianças para o sucesso das medidas de vigilância e controle do tracoma.

Não há necessidade de isolamento dos casos. Os indivíduos com tracoma devem receber tratamento e continuar a frequentar a instituição. O tracoma não é uma doença de notificação compulsória nacional, entretanto é uma doença sob vigilância epidemiológica de interesse nacional, por ser uma doença com metas de eliminação como problema de saúde pública, sendo orientado o registro de todos os casos positivos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

Situação epidemiológica do tracoma

Dados registrados no Sistema de informação de Agravos de Notificação - Sinan net , no período de 2008 a 2017 revelam que 4.475.122 pessoas foram examinadas e identificados 166.785 casos de tracoma, em 1.030 municípios notificantes, distribuídos em 25 Unidades Federadas (UF). O percentual médio de positividade nacional neste período foi de 3,7%, com variações médias estaduais entre 0,3% a 20,8%, conforme dados apresentados na Tabela 1.

Observa-se que dos 1.030 municípios notificantes, 737 (71%) apresentaram percentual de positividade <5%, 187 (19%) apresentaram percentual de positividade ≥5 e <10% e 106 municípios (10%), apresentaram percentual de positividade ≥10%. A doença é considerada sob controle quando os percentuais de positividade estão abaixo de 5% na população de crianças de 1 a 9 anos de idade, em uma área geográfica determinada, conforme preconizado pela OMS.

Os estados de Ceará e São Paulo examinaram o maior número de pessoas quando comparado aos demais, sendo responsável por 51,8% dos exames realizados no país e apresentando percentuais médios de positividade de 3,6% e 2,0%. Os estados do Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pará, Roraima, Rio Grande do Sul e Santa Catarina foram os que apresentaram os percentuais médios de positividade >5%, conforme dados observados na série histórica de 2008 a 2017, descritos na tabela 1.

Tabela 1: Número de examinados, casos e percentual de positividade de tracoma (TF/TI) por municípios, Brasil, 2008 a 2017.

UF

Nº de municípios

 Examinados

Casos

% médio de positividade

Nº de municípios com positividade <5%

Nº de municípios com positividade ≥ 5% e < 10%

Nº de municípios com positividade ≥10%

AC

17

32.364

442

1,37

17

0

0

AL

3

609

2

0,33

3

0

0

AM

7

15.098

3.150

20,86

1

6

0

AP

4

17.509

735

4,20

2

0

2

BA

53

388.302

20.263

5,22

21

15

17

CE

103

1.272.442

46.042

3,62

68

14

21

DF

1

9.352

989

10,58

 

1

0

ES

48

191.392

12.712

6,64

20

13

15

GO

5

28.726

4.341

15,11

1

1

3

MA

59

217.347

2.358

1,08

50

6

3

MS

12

76.479

2.957

3,87

9

0

3

MT

19

24.711

1.331

5,39

10

4

5

PA

18

52.369

3.517

6,72

10

3

5

PB

2

2.757

10

0,36

2

0

0

PE

83

156.810

7.344

4,68

57

7

19

PI

40

39.357

619

1,57

39

0

1

PR

1

312

15

4,81

1

0

0

RN

38

161.750

3.101

1,92

37

1

0

RO

26

128.573

5.874

4,57

16

4

6

RR

13

35.651

5.600

15,71

2

10

1

RS

7

5.343

319

5,97

2

1

4

SC

51

145.589

8.203

5,63

15

3

33

SE

17

22.924

1.116

4,87

9

1

7

SP

292

1.048.824

21.761

2,07

264

1

27

TO

111

400.532

13.984

3,49

81

15

15

Total

1.030

4.475.122

166.785

3,73

737

106

187

(*) 1030 municípios notificantes
Fonte: Sinan Net, julho de 2018.

Observa-se no mapa abaixo que em alguns estados, poucos municípios realizaram ações de vigilância da doença, por esse motivo, parte de sua extensão territorial encontra-se em branco por não apresentarem dados registrados no Sinan net. Isso se deve ao fato de nem todos os estados terem equipe suficiente para realizar a busca ativa de casos de tracoma. As maiores concentrações de positividade, acima de 10%, ocorrem nas regiões norte, em especial no estado do Tocantins, Roraima e Amazonas, em municípios que apresentam populações indígenas.

Tracoma: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção

Percentual de positividade:

  • <5% = 737 municípios
  • ≥5 <10% = 187 municípios
  • ≥10% = 106 municípios

Total de municípios notificantes = 1.030

Figura 1 - Número de municípios e distribuição proporcional de positividade para tracoma, Brasil, 2008 – 2017.

Fonte : SINAN NET , 2008 a 2017

No ano de 2017, 323 municípios participaram realizaram ações de tracoma, onde foram examinadas 425.687 pessoas e identificados 12.769 casos da doença, que corresponde a um percentual de positividade médio de 3,0%, com variações entre 0% e 33,5% de acordo com dados descritos na Tabela 2.

Observa-se que dos 323 municípios notificantes, 255 apresentaram percentual de positividade <5%, 37 apresentaram percentual de positividade ≥5 e <10% e 31 apresentaram percentual de positividade ≥10%. Nos municípios onde os percentuais estão acima de acima de 5% é necessário implementar as ações de educação em saúde e melhorias ambientais, conforme preconizado pela OMS.

Os estados de Ceará e São Paulo examinaram o maior número de municípios quando comparado aos demais, sendo responsável por 62,6% dos exames e apresentando percentuais médios de positividade de 3,2% e 1,2%. Os estados do Amazonas, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco e Roraima foram os que apresentaram os percentuais médios de positividade >5%, conforme descrito na tabela 2.

Tabela 2: Número de examinados, casos e percentual de positividade de tracoma (TF/TI) por municípios, Brasil, 2017.

UF

Contagem de municípios

Soma do nº de Examinados

Casos

% médio de positividade

Número de municípios com positividade <5%

Nº de municípios com positividade ≥ 5% e < 10%

Nº de municípios positividade ≥ 10%

AC

4

4.961

40

0,8

4

0

0

AL

2

469

0

0,0

2

0

0

AM

2

1.230

91

7,4

1

0

1

BA

27

40.386

1.852

4,6

12

10

5

CE

68

203.514

6.561

3,2

55

5

8

ES

3

12.787

211

1,7

3

0

0

MA

7

12.270

18

0,1

7

0

0

MS

1

1.692

101

6,0

0

1

0

MT

3

1.765

90

5,1

2

1

0

PA

3

634

86

13,6

1

1

1

PE

6

1.741

141

8,1

3

1

2

PI

11

4.116

57

1,4

9

2

0

RN

7

6.558

85

1,3

5

1

1

RO

12

19.721

596

3,0

10

0

2

RR

7

2.810

940

33,5

0

0

7

RS

1

646

8

1,2

1

0

0

SC

29

12.281

591

4,8

20

8

1

SE

1

466

21

4,5

1

0

0

SP

82

63.230

753

1,2

78

3

1

TO

47

34.410

527

1,5

41

4

2

Total

323

425.687

12.769

3,0

255

37

31

Fonte: Sinan Net, julho de 2018.

Encontra-se em desenvolvimento no país, um inquérito nacional de prevalência de tracoma em áreas de risco epidemiológico e social. O referido inquérito tem como objetivo verificar a situação epidemiológica da doença quanto ao atendimento das metas finais de eliminação do tracoma como problema de saúde pública.   De acordo com os resultados deste inquérito, serão desencadeadas ações para a certificação da eliminação da doença no país.

 

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